O lirismo impossível: poesia e litanias

  • Gabrielle Althen (Colette Astier)
  • Francine F. Weiss Ricieri UNIFESP- SP
  • Maria Lúcia Dias Mendes UNIFESP- SP

Resumo

O ensaio discute o caráter artificioso da poesia. Haveria similaridade com o que ocorre não com textos ordinariamente chamados místicos, mas com poemas místicos, quando são verdadeiramente poemas (de que seriam bom exemplo poemas de São João da Cruz). Nesse sentido, a litania forneceria um bom contraponto, por se constituir em gênero que parece apostar na convergência entre o sujeito que ora e o destinatário de sua oração. Astier propõe a reaproximação entre litanias religiosas e um poema de T. S. Eliot, que se confere andamento de litania e se propõe como poema efetivo e falsamente litânico. A comparação entre uma forma prescrita pela tradição e a estrofe do “Ash Wednesday" (que a evoca) é combinada com o exame de dois poemas intitulados "Dévotion", um de Rimbaud, outro de Bonnefoy, sendo que o segundo se apresenta como prolongamento do primeiro. São dois poemas de invocação nos quais o sujeito lírico se projeta até o ponto de quase desaparecer da cena verbal. Ambos se reaproximam da postura implicada pela recitação de litanias, em especial pela atitude exclamativa, estudada por Valéry, Octavio Paz e Maulpoix. Astier enfatiza a necessidade de focar não a fugacidade da exclamação, mas a atitude psíquica que revela. Como na mística, em que a contemplação procederia de um esvaziamento do sujeito, também as fórmulas verbais exclamativas revelariam a síncope de um sujeito, seu silêncio, sua inação. O sujeito lírico, aspirado pelo mundo e pelo objeto de seu desejo é transportado. O êxtase, no sentido original, procederia deste transporte. Nas litanias, com efeito, o processo é simples e repetitivo, reorganizando a contemplação de verso em verso, sem progressão. Esta forma é tomada de empréstimo por Eliot, mas o poema desenvolve, de uma perspectiva religiosa explícita, uma meditação sobre o poder da palavra poética. O ensaio também aborda pelo menos dois recursos paralelos aos procedimentos exclamativos. O primeiro se relaciona com um retorno à narração e o segundo à própria música e suas suspensões.

Como Citar
(Colette Astier), G., Ricieri, F., & Mendes, M. L. (2019). O lirismo impossível: poesia e litanias. ELyra: Revista Da Rede Internacional Lyracompoetics, (12), 199-230. Obtido de http://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/271
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